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sábado, 11 de fevereiro de 2017

[entra.]

o ano muda.
mudam as cores.
mudam-se os cenários.
personagens permanecem.
há quem chegue, bem perto, fique.
há quem volte para nunca mais ficar.

por bem, pelo mal.

0h: as alterações não foram programadas.

0h01: os erros foram reprogramados.

talvez a vida, este sopro, trate disso. de fazer, pouco acertar, sempre errar. talvez a vida seja o intervalo entre uma queda e outra. porque, sim, é da queda que falamos, é à queda que estamos invariavelmente fadados. não à virtude. ou quem sabe aos acertos. resta o vício. a errância é a única certeza de uma vida-travessia.

[entre.]

uma queda e outra. e|ssa in|ter|mi|tên|ci|a |de |fra|ca|ssos. o ano muda e mudam as cores e mudam-se os cenários.

por bem, pelo mal.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

DA PODRIDÃO, FAZ-SE PINHEIROS E PRECIPÍCIOS

Espetáculo curitibano coloca em cena uma cidade à beira do abismo e os traços biográficos de Wilson Bueno

Stéfano Belo, no tortuoso papel de Bueno, é um dos destaques no espetáculo. Foto: Humberto Araujo/Clix.

Curitiba, meu amor, nós estamos predestinados.
Estamos predestinados ao seu falso luxo, ao seu lixo, às suas rixas, às suas bichas. Aos seus clichês. Aos seus últimos michês.
Nosso amor, meu amor, está oculto, no entanto, sob uma redoma de esteriótipos. De falsos-títulos. De falsos-moralismos. Ao invés de nos assumirmos amantes, devassas, prostramo-nos (ou, pelo menos, fingimos nos prostrar) estáveis tais quais pinheiros. Estanques. Estancados.
Por que nos acovardamos, travestidos em papéis que não são os nossos? Por que o ódio à atriz, se atuamos todos nós nessa terra de disfarces? Por que o julgamento, se estamos todos diante da sarjeta?
Em vida, Wilson Bueno não se acovardou. Optou por flertar com o precipício e fez de sua obra um “diário vagal” – ou a poética do fracasso –, destituído de qualquer idealização ou etiqueta sobre essa cidade de aparências. Uma cidade para a qual não há salvação, nem heróis. Nas narrativas de bares e boleros, revela-se o escritor que, ao invés de se resignar à hipocrisia do cartão-postal, percorreu as vísceras de uma Curitiba perturbadora, à margem.
Em cena, a parceria entre a Selvática Ações Artísticas e O Estábulo de Luxo escarrou, sem covardia, a podridão da capital em um espetáculo revolto, envolto em dores e devaneios. Em sua primeira sessão na Curitiba Mostra, nas instalações do Guairacá Cultural, Pinheiros e Precipícios fez com que o público se inquietasse com a inquietude dos traços e tramas de Bueno. Na confusão de putas e demônios, bairros e becos, eis o universo que permeou vida e obra de um dos principais nomes da literatura paranaense.
Dirigido pelo inquieto (no melhor dos sentidos) Ricardo Nolasco, o espetáculo se reveste de simbologia, manifesta em elementos cênicos mais ou menos óbvios. O ritmo das teclas da máquina de escrever, o entrar e sair do armário, as canções de inferninho, os traços quebradiços em giz, o tilintar de moedas, o incômodo riscar da faca, o tombo do pinheiro são opções estéticas que ajudam a reconhecer – se não racionalmente, pelo menos intuitivamente – a aldeia buenista. Junto à performance do elenco principal (com destaque para as atuações de Patricia Saravy, Jeff Bastos e Stéfano Belo) e à onipresença de um coro de bestas-feras, a composição caótica esboça um labirinto que percorre os caminhos da poética tanto de Bueno, quanto da Selvática e d’O Estábulo – talvez, as companhias curitibanas mais creditadas a revirar nossas entranhas com tamanha autenticidade, sem meios-termos. Faz muito sentido que as linhas de Bueno tenham ganhado fôlego dramático pelo sopro de dois grupos que fazem da arte a resistência, o desbunde, a ode à decadência da capital.
A dramaturgia apresenta tramas que ora se alternam, ora se beijam, como o esboço de uma produção literária, como o arquejo de uma vida. Mescladas às passagens biográficas, certas paisagens de Bolero’s Bar e Mano, a noite está velha se desenham em uma hora e meia de espetáculo. No precioso texto de Francisco Mallmann, os territórios de Bueno revelam-se ainda mais (in)tensos e lembram que o que está em jogo não é o pinheiro a prumo mas, sim, o seu declínio. O descompasso de uma capital à beira do abismo. O ativismo cênico e literário de artistas que não se curvam à “cidade-modelo”.
Por isso, tão verdadeiros. Wilson Bueno, Selvática e O Estábulo de Luxo. Por isso, tão predestinados. A Curitiba. A essa sórdida Curitiba.

segunda-feira, 21 de março de 2016

QUANDO A TRAGÉDIA GREGA SE ESPALHA PELAS RUAS

Espetáculo convida o público a sair do teatro em busca dos flagelos de Édipo Rei


O diretor Darlei Fernandes como Corifeu, o "chefe do Coro", em cena de "Édipo_2: Párodo". Foto: Akio Garmatter/Divulgação.

A Companhia Subjétil volta às ruas da cidade para apresentar “Édipo_2: Párodo”, em cartaz na Mostra Fringe do Festival de Teatro de Curitiba nos dias 23 e 25 de março. O espetáculo convida o público a sair da condição de espectador e seguir um percurso de performances potentes por ruas do São Francisco, setor histórico da capital.
A proposta artística do diretor Darlei Fernandes é abordar o discurso e a função do Coro Trágico como foco principal do evento cênico, a partir do mito e da estrutura dramatúrgica das tragédias gregas. Partindo do Teatro Novelas Curitibanas, os artistas Carol Damião, Daniele Cristyne e Ricardo Nolasco desconstroem a tragédia ideal em busca dos flagelos do filho de Jocasta em quase duas horas de errâncias pela região. Entre a primeira cena e o êxodo, o trajeto contempla pelo menos doze pontos do bairro, dentre os quais a Praça Odilon Mader e o Reservatório do Alto São Francisco.
Pensar Édipo é reexplorar a cidade e entendê-la como um corpo amorfo que cresce e se molda ao seu coro de vozes dissonantes. Não se trata de mais uma releitura da história de Sófocles. Trata-se de uma procura pelo herói – embora, desde o começo do espetáculo, sejamos avisados de que “Édipo não está e nem virá”.
No ano passado, quando em cartaz na Mostra Drama_1, promovida pela Companhia de Bife Seco, assisti ao espetáculo e escrevi algumas ruminações sobre ele n'A Escotilha (leia aqui). Dentre o que mais me chamou atenção à época, pontuei o seguinte:

"Cabe ressaltar o quanto a região em que a trama se estabelece é decisiva na composição não apenas do cenário, como, sobretudo, da dramaturgia. O conflito proposto por Édipo_2: Párodo funciona, dentre outras coisas, porque traz à cena o bairro-símbolo da divergência ideológica na cidade, a ambiguidade edípica por excelência. Eis um São Francisco que suscita pena e, ao mesmo tempo, encanto. Belo em sua podridão obscura; triste à sombra dos palacetes e discursos moralistas. O orgulho e a vergonha da “urbe-projeto-esgotado”. Um São Francisco esposa e mãe. Gozo e leite".

"Fora Cunha": as incoerências do cenário político nacional farão parte dos textos da peça. Foto: Akio Garmatter/Divulgação.


Para esta temporada no Fringe, a Subjétil promete atualizar a dramaturgia do espetáculo, levando em conta, sobretudo, o atual e conturbado momento político pelo qual o país atravessa. As divergências ideológicas, hasteadas em bandeiras rivais e inflamadas em discursos de amor e ódio, remontam à contradição edípica por excelência. Mais um motivo para conferir este transgressor trabalho da companhia curitibana.
Fundada em 2007 por Fernandes, a Subjétil tem em seus trabalhos a pesquisa de criação cênica em diálogo com a performance, a dança e a arquitetura. Os espetáculos do grupo curitibano são reconhecidos pelo abandono do palco tradicional e das salas teatrais para a invasão do espaço urbano. Em 2010, estreou “Édipo: Prológo”, onde explorava, além do mito, a história da arquitetura da região no entorno do teatro. Neste novo trabalho, Édipo retorna como tema de pesquisa, mas agora sob o olhar do Coro, ou seja, do povo da cidade.
“Édipo_2: Párodo” tem entrada franca. Recomenda-se ao público usar roupas e sapatos confortáveis e levar guarda-chuva, se necessário.

Serviço
Companhia Subjétil
23 e 25 de Março (quarta e sexta), às 18h
Teatro Novelas Curitibanas
Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 1222

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

LEITURAS DE 2015, UM ANO EM 9278 PÁGINAS

Não atingi, nem dobrei a meta. Mas deu pra ler coisa pra caramba no desafio dos 50 livros


Foto: Daniele Cristyne.


"Um dia antes de que 2014 escapasse para sempre e em meio às promessas para o porvir, estabeleci uma resolução um tanto audaciosa comigo mesma. Mais do que um objetivo pragmático, tratou-se de uma missão que julgo transcendente: a de ler, ao longo de 2015, pelo menos cinquenta livros – e não tons de cinza".
Essa história tornou-se conhecida em 30 de março, dia em que A Escotilha, excelente proposta de jornalismo cultural de Curitiba, foi ao ar. Fui parar na equipe de colaboradores a convite dos editores e amigos Alejandro Mercado e Maura Martins. Eles leram uma publicação no Twitter em que comentei sobre essa história de cinquenta títulos em um ano e acharam que seria bacana compartilhar minhas experiências de leitura com o público do portal que estava para ser inaugurado. 

Cuidado: as pessoas podem levar a sério as baboseiras que você publica.

Assim, fui presenteada com a coluna Contracapa, na qual eu escreveria não apenas a respeito de livros e suas tramas, mas, principalmente, sobre os meus percursos e processos de leitura. Um espaço, enfim, sobre travessias, devaneios e ruminações.
A partir da primeira publicação no site, intitulada "Contracapa: o desafio dos 50 livros" (leia aqui), o desafio tornou-se ainda mais sério. Agora que a meta era conhecida por muitas pessoas, eu tinha mais é que me dedicar a cumpri-la - ou a parada ficaria muito feia pro meu lado.
Acontece que, transcorridos 12 meses, eu admito que não atingi o objetivo; não consegui ler os cinquenta livros a que tinha me disposto. Em minha defesa, posso dizer que a tentativa, ainda que fracassada, foi ao menos determinada. Sincera. E, sim, muito produtiva.
Foram 40 leituras ao longo de 2015, das quais 35 válidas nos critérios que eu mesma estipulei nesse desafio (a lista completa segue no final deste post). O ano correu no ritmo das 9278 páginas das obras lidas, entre quadrinhos, contos, crônicas, poemas e, principalmente, romances; produções de 31 autores diferentes (25 homens e seis mulheres), vindos das Américas do Norte, Central e do Sul, além de Europa e África. Descobri as agruras mexicanas, o claustro de um convento na Colômbia, o horror das ditaduras da República Dominicana, de Marrocos e da Alemanha Nazista, um mundo pré e pós computadorizado no Chile, o buriti e as veredas do grande sertão brasileiro, as cenas cinzas da Curitiba que viajo. E olha que eu nem saí do meu sofá.


Mesmo que o eldorado não tenha sido tocado, o número que alcancei não deixa de ser expressivo: noves fora, a média final chegou a três livros por mês (ou 25 páginas por dia). O que importa, no entanto, não são as cifras, mas o sabor literário daquilo que foi contemplado. É aí que o feito, mesmo que incompleto, ganha valor genuíno para mim: eu não me enganaria ao dizer que trinta das minhas leituras foram ótimas em alguma medida. 
Com isso, encontrei certa dificuldade em elaborar uma lista sobre quais teriam sido as melhores leituras deste ano. Isso porque o que torna um livro inesquecível não se resume à trama, à construção e à fluidez narrativa, ao estilo ou ao valor literário, mas engloba tanto as particularidades intrínsecas ao texto quanto as características de cada leitor - bagagem literária, referências socioculturais, carga de experiências, memórias afetivas, estado de espírito. 
Fui obrigada, então, a elencar algumas categorias para qualificar os livros em diferentes aspectos - alguns mais mensuráveis, outros totalmente subjetivos. Assim, consegui abarcar livros que, ainda que muito bons em alguns pontos, deixariam de ser citados/lembrados se o critério fosse apenas "os melhores" - e, afinal, o que é melhor ou pior quando falamos em arte?

Eis, portanto, os meus destaques de 2015:


Os bonitões
1) O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez (WMF Martins Fontes)

Pena que essa edição está esgotada!

















2) Bonsai (Cosac Naify)
3) a máquina de fazer espanhóis (Cosac Naify)
   O Filho de Mil Homens (Cosac Naify)¹


Os gigantes pela própria natureza
1) Harry Potter e a Ordem da Fênix (704 páginas)
2) Grande Sertão: Veredas (624 páginas)
3) Harry Potter e o Cálice de Fogo (536 páginas)


Rápidos, rasteiros e potentes
1) O mistério da prostituta japonesa & Mimi-Nashi-Oichi (18 páginas)
2) Festa no Covil (96 páginas)
3) Bonsai (96 páginas)


Frescor literário
1) a máquina de fazer espanhóis (leia a crítica)
   Bonsai (leia a crítica)
2) A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao (leia a crítica)
3) A Visita Cruel do Tempo (leia a crítica)


Pancadaria literária
1) a máquina de fazer espanhóis
2) Mano, a noite está velha
3) Desonra 

  • Hors concour - Grande Sertão: Veredas

Melhores tramas
1) A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao
   Eu, Malika Oufkir, Prisioneira do Rei
2) A Visita Cruel do Tempo
   Clube da Luta
3) O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez

  • Hors concour - Grande Sertão: Veredas

Melhores leituras
1) Grande Sertão: Veredas
2) a máquina de fazer espanhóis
   Festa no Covil (leia a crítica)
3) Desonra (leia a crítica)
   O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez


Melhores releituras
1) Grande Sertão: Veredas
2) A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao
3) Ultralyrics


Não indico nem a pau
1) Vinte mil léguas submarinas (Adaptação de Walcyr Carrasco) – 1 estrela
2) A biografia de Torquato Neto – 2 estrelas
3) Harry Potter e a Ordem da Fênix - 3 estrelas


Enfim, pelo menos nas leituras, 2015 foi um ano excelente. Não li muitos clássicos, é verdade, mas consegui equacionar alguns déficits do meu repertório literário (literatura contemporânea, literatura infantojuvenil, literatura paranaense). Para o ano que vem, já tenho alguns planos em mente (Ulysses é o principal deles!), mas a meta fica em aberto. Assim, quando eu alcançá-la, quem sabe não poderei dobrá-la?²

#leiacomigo



LEITURAS DE 2015:
Literatura (29) - A biografia de Torquato Neto - Toninho Vaz * Nelson Triunfo – Do sertão ao Hip-Hop - Gilberto Yoshinaga * Eu, Malika Oufkir, prisioneira do rei - Malika Oufkir e Michèle Fitoussi * A Trama do Casamento - Jeffrey Eugenides * Festa no Covil - Juan Pablo Villalobos * Se Vivêssemos em um Lugar Normal - Juan Pablo Villalobos * A Visita Cruel do Tempo - Jennifer Egan * O Oceano no Fim do Caminho - Neil Gaiman * A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao - Junot Díaz * a máquina de fazer espanhóis - Valter Hugo Mãe * O Filho de Mil Homens - Valter Hugo Mãe * Bonsai - Alejandro Zambra * Desonra - J.M. Coetzee * Lincha Tarado - Dalton Trevisan * Como eu se fiz por si mesmo - Jamil Snege * A Nona Cartada - João Batista de Pilar * Ultralyrics - Marcos Prado * A Rainha Vermelha - Victoria Aveyard * Harry Potter e o Cálice de FogoJ.K. Rowling * Grande Sertão: Veredas - João Guimarães Rosa * Vinte Mil Léguas Submarinas - Julio Verne (adaptação de Walcyr Carrasco) * Mano, a noite está velha - Wilson Bueno * Do amor e outros demônios - Gabriel Garcia Marquez * O Hobbit: Lá e de Volta Outra Vez - J.R.R. Tolkien * Meus Documentos - Alejandro Zambra * Harry Potter e a Ordem da Fênix - J.K. Rowling * O Mistério da Prostituta Japonesa & Mimi-Nashi-Oichi - Valêncio Xavier * O Grande Gatsby - Franz Scott Fitzgerald * Clube da Luta - Chuck Palahniuk. Outras linguagens (6) - Maus: a história de um sobrevivente - Art Spiegelman * Ópera da Lua – Osgêmeos Vigor Mortis Comics - Paulo Biscaia Filho, José Aguiar e DW Ribatski * Songbook Paulo Leminski - Paulo Leminski/Estrela Leminski * Esperando Godot - Samuel Beckett * Eles não usam Black-Tie - Gianfrancesco Guarnieri.



¹: R.I.P. Cosac Naify. ♥
²: O contra desta capa representa uma bravata: leia mais.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

O DIA DA MINHA NOITE



Eu penso tanto sobre tanta coisa que quase não sobra tanta coisa para pensar. Eu amo tanto tanta gente, longe-ou-perto-ao-meu-redor, que quase não sobra amor sobre mim. 
Para mim. 

Eis que chega o fim. Eu que chego ao fim.

Eu não consigo e, ao mesmo tempo, penso que já consegui tanto que quase não sobra nada que eu ainda possa conseguir. Que eu consiga conseguir. Eu posso tanta coisa e, das tantas que posso, quase não sobra poder.
Eu amo, eu amei, mas não dou mais conta de continuar. Tem tanta coisa sobre mim. Eu ainda vou estar. Em outra perspectiva, porém. Uma em que eu não precise mais pensar, amar, conseguir ou poder. Uma em que eu não precise mais sofrer.

CÚMPLICE



Eu não conseguia pegar no sono. Minha irmã já havia dormido. Ela parecia conseguir pegar no sono quando bem entendesse, uma habilidade que eu não tinha e invejava.

Neil Gaiman, “O Oceano no Fim do Caminho”


Uma mulher saiu de casa.
Uma mulher confiando em nosso sono saiu de casa.
Uma mulher confiando em nosso sono saiu de casa e nos deixou aqui. 
Uma mulher confiando em nosso sono saiu de casa e nos deixou aqui eu e minha irmã. 
A mulher é a nossa tia.
A nossa tia sai de casa quando pensa que estamos dormindo.

(eu sempre finjo que estou dormindo um pouco antes da minha tia sair às vezes até acabo cochilando a minha irmã que é minha irmã mais nova é muito medrosa sorte é que ela nunca acordou das outras vezes em que a nossa tia saiu acho que ela pega no sono quando bem entende)

Esta noite, uma mulher confiando em nosso sono saiu de casa e nos deixou aqui eu e minha irmã.
Acordados.